
Entre fevereiro e novembro de 2010, a fotógrafa brasileira Ana Tellini esteve a bordo do Costa Concordia, trabalhando durante a temporada europeia do cruzeiro. Na manhã do último sábado, avisada por um amigo que o mesmo navio onde foram colegas de tripulação naufragara próximo à ilha italiana de Giglio, a primeira sensação de Ana foi de incredulidade. "Nem podia acreditar que um navio para 5 mil pessoas pudesse tombar assim, sem nenhuma tempestade ou risco aparente", afirma.
Segundo a ex-tripulante, a primeira orientação recebida pela equipe do navio para casos de emergência é "não dar detalhes aos passageiros para não espalhar pânico, falar baixo, encontrar os pais das crianças". Ela conta que, durante os treinamentos obrigatórios a quem pretende fazer parte da tripulação, o security officer (profissional encarregado da segurança da viagem) orientou a usar de violência ou trancar o passageiro que se descontrolasse em casos de emergência. "Segundo ele, isolar o pânico era muito mais importante que salvar aquela vida desesperada", relata Ana. "Se pensarmos que o passageiro trancado pode ser abandonado num navio naufragado, isso pode significar matá-lo."
Ana entende que o curso de salvamento é importante, mas que em uma situação real tudo muda. "Somos informados que teremos tarefas a realizar em caso de emergência, ou seja, que continuamos trabalhando mesmo que seja no salvamento, mas na prática é tudo muito diferente", diz.
O também ex-tripulante brasileiro Hélio Mothci, que entre fins de 2009 e início de 2010 esteve a bordo do navio que tombou nas águas do Mediterrâneo, acredita que o treinamento garante que a equipe esteja preparada operacionalmente para situações de emergência, mas não psicologicamente. "O problema é o desespero, porque o tripulante também tem que se salvar. Será que, se a função dele for ficar falando para os passageiros escaparem pela esquerda e não pela direita, ele vai fazer isso ou vai tentar se salvar?", indaga.
Para Mothci, provavelmente esse foi um dos problemas que fizeram alguns equipamentos de salvamento não funcionarem corretamente. "Tinha vários tipos de bote, talvez não tivesse gente para operar, talvez quem devesse operar tivesse fugido antes", especula o estudante.
Sobre a detenção do capitão do Concordia e a acusação de homicídio culposo múltiplo, naufrágio e abandono do navio enquanto muitos passageiros ainda se encontravam na embarcação, Ana não titubeia em dizer que concorda. "Que fique preso até provar que não foi orgulhoso e irresponsável."
Para a fotógrafa, o acidente que matou ao menos cinco pessoas foi provocado por falha humana. "Toda equipe, desde o capitão até o safety officer (profissional especializado em instruir a tripulação e os passageiros para casos de emergência) devem ser responsabilizados", opina. "O Concordia é uma embarcação para 5 mil pessoas e, como todo navio de cruzeiro, tem satélites e tecnologia suficiente para ver uma pedra no fundo do mar. Essa insistência de passar por canais pequenos é pura escolha humana", critica a ex-tripulante. "Os bancos de areia estão lá, sempre estiveram e todo mundo sabe que a região do acidente é difícil de navegar porque não há profundidade suficiente para um navio gigantesco."
Mothci tem opinião diferente. "Tudo leva a crer que foi uma fatalidade, porque o banco de areia não estava mapeado", observa. No entanto, ele concorda que, se o capitão não cumpriu com sua função, precisa ser punido. "O capitão tem obrigação de orientar o desembarque e garantir a segurança de todos, até de desembarcar por último. Se não fez isso, descumpriu a função dele", disse.
"É como ver tua casa pegando fogo e estar feliz de não estar nela"
Igual a provavelmente qualquer pessoa que já embarcou em um cruzeiro no navio que tombou no sábado, o primeiro pensamento de Hélio Mothci ao saber da notícia foi de que o acidente poderia ter acontecido enquanto ele estava a bordo. Mas, ao contrário do que se imagina, o estudante quase lamentou por não estar lá. "Seria no mínimo uma grande experiência, seria mais uma adrenalina do que um desespero", analisa. "Eu tinha um desejo de passar por uma tempestade para ver como é", relembra, lamentando a calmaria das águas durante o período em que esteve em alto-mar.
Ana Tellini define a sensação que teve ao saber do naufrágio da embarcação da qual desembarcara há pouco mais de um ano de maneira bem diferente. "Ver o Concordia assim de lado é como ver tua casa pegando fogo e estar feliz de não estar nela e não ter ninguém da tua família lá dentro, e é triste mesmo assim", compara.
Ao embarcar, Ana criou um blog (http://diariodebordomesmo.blogspot.com/) cujo objetivo era fazer uma espécie de diário de bordo para relatar a experiência. "Eu só encontrava sites e blogs ajudando o tripulante a conseguir um embarque. E eu queria ler histórias, saber da vida lá dentro, então contei a minha história", diz. Encerrada a aventura, já em terra firme, depois da viagem, Ana e o companheiro de viagem Rodrigo Mora decidiram dar novo rumo para a página. "Queremos prestar um serviço, para quem está pensando em embarcar saber como é de verdade."
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