
- Caminhávamos para o metrô quando pedaços de reboco e aparelhos de ar-condicionado despencaram, segundos antes de os prédios desmoronarem. Tentamos fugir, mas eu caí no chão, no meio da nuvem de poeira. Fiquei me perguntando se estava viva e pedi a Deus que perdoasse meus pecados - diz ela, acrescentando que, ao chegar em casa, parentes a fotografaram cheia de poeira.
A tragédia assustou também a radialista aposentada Julieta Duarte Loureiro, de 69 anos, que está improvisando, no corredor do apartamento, um fogareiro com uma panela e álcool em gel, onde cozinha macarrão, já que está sem fornecimento de gás desde a tragédia. Da janela, acompanha a remoção dos escombros. Ela estava na porta do prédio onde mora, conversando com amigos, quando os edifícios ruíram. Julieta correu para rua porque a sua portaria estava fechada. Naquele dia, não dormiu. Nas manhãs e tardes seguintes, quando os bombeiros procuravam pelos corpos, ela assistiu a tudo da sua janela. Do mesmo local, lembra a aposentada, viu outras tragédias, como o incêndio no prédio da Caixa Econômica e da Vale:
- Vi os bombeiros pegando partes de corpos e colocando em plásticos pretos. Isso tudo é muito triste, mas não vou me mudar. Moro aqui há 39 anos.
Hoje, o vazio onde havia os prédios provoca tristes lembranças ao advogado Serafim Gomes, de 66 anos. Na infância, vivida numa casa em Santa Teresa, ele via da janela do seu quarto um terreno vazio onde antes havia um imóvel que foi atingido pela queda de uma encosta. Passados 61 anos, a vista de uma nova janela - desta vez, do seu escritório no 16 andar do Edifício M.L. Renha II, no número 41 da Avenida Treze de Maio - volta a assombrar seus pensamentos:
- Abri a porta do escritório e me deparei com um pouco de poeira nas janelas. Limpei o vidro e tomei um baque: os prédios que estava acostumado a ver pela janela há cinco anos foram reduzidos a pó.
A visão dos escombros entristece o cabeleireiro André Luiz de Oliveira, que trabalha num salão de beleza na Avenida Treze de Maio 33B. O profissional estava acostumado a ver a movimentação no Edifício Liberdade. Um andar acima do salão trabalha a manicure Aline de Souza, funcionária de um outro salão de beleza. Ela se proibiu de olhar pela janela. Aline estava trabalhando no momento do desabamento e tem tido pesadelos desde então.
- Ouvi um estrondo e corri para a janela. Em questão de segundos, o chão começou a tremer e uma nuvem de fumaça tomou a rua. Achei que ia morrer. Parecia que estávamos no meio de um terremoto. Não consigo nem olhar para os destroços. Quero esquecer o desmoronamento, mas a janela não me deixa.
Funcionários se dedicam à limpeza das lojas
Com as lojas ainda fechadas ao público, no início da manhã funcionários retiravam a lama e a terra acumuladas. Muitos trabalhadores diziam que estavam com medo. Comerciantes reclamavam ainda do prejuízo por terem passado tanto tempo com as lojas fechadas.
- O prejuízo maior é o emocional. Muitas das vítimas eram nossos clientes - disse o gerente de um restaurante na Treze de Maio, Sílvio Santos Fausto, de 33 anos.
Sílvio estava na porta do estabelecimento - de frente para o local onde ficavam os prédios que desabaram - quando viu um pedaço de reboco e um aparelho de ar-condicionado caindo. Em seguida, viu os edifícios desmoronarem.
Com máscaras ou panos tapando o nariz, cerca 50 funcionários da lanchonete tiravam ontem a sujeira deixada pela tragédia.
Proprietário de uma loja de roupas masculinas na esquina da Avenida Treze de Maio com a Travessa do Poeta de Calçadas, Rafael Balasseano, de 55 anos, disse que vai fazer uma liquidação:
- Tenho que pagar o aluguel, os funcionários, e ficamos vários dias fechados.
Gerente de uma loja de roupas femininas na Avenida Almirante Barroso esquina com a Treze de Maio, Roberta Batista, de 28 anos, disse que as 13 vendedoras do estabelecimento estão apavoradas. No momento dos desabamentos, seis funcionários estavam dentro da loja.
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