Padre Zezinho fala dos mais diversos assuntos a nossa equipe
Com 40 anos de sacerdócio, 42 anos de carreira, já gravou 119 discos, já cantou em mais de 40 paises em seis idiomas diferentes, com mais de 1700 canções compostas. O Padre José Fernandes de Oliveira, mais conhecido como “Padre Zezinho” concede entrevista a nossa equipe.
Padre Zezinho todas as suas músicas falam na família. Como o senhor vê a instituição família hoje?
A família vem sendo jogada no ralo por causa de projetos individuais. No mundo inteiro vale muito mais o projeto “eu” do que o projeto “o outro” e é por isso que os pais não exitam em trocar os filhos, a esposa ou esposo por outra pessoa. No projeto pessoal (Eu quero ser feliz e eu não agüento ser feliz com essa pessoa; Esses filhos me atrapalham; Esse feto me atrapalha, então vou me livrar dele...) as pessoas colocam como centro do universo o seu “eu” e com isso, perdem a noção do direito do outro.
Como a senhor classifica a relação da Igreja com a política?
Toda igreja que quer merecer o nome de Igreja precisa fazer política, pois polis quer dizer cidade, e eu tenho de me preocupar que haja escolas, água, esgotos, limpeza e moradia para todo mundo. Isso tudo é política. O que nós podemos escolher fazer ou não é política partidária. Eu faço política o tempo todo, mas não partidária. Não me atrelo a nenhum partido. Eu tenho idéias básicas do que para mim seria uma vida democrática. Sou a favor de uma imprensa livre, por mais que ela possa me ferir, sou a favor de mais partidos e não de um só. Sou contra qualquer ditadura. Sou a favor do direito de opinião, mas se um jornalista passar do limite, ele deve ser punido e se um pregador passar do limite, ele também deve ser punido, pois se ele ensinar mentira na sua pregação, já não está agindo como pregador. A busca da verdade deve ser fundamental para todos.
Como o senhor qualifica a renovação Carismática no Brasil e no mundo?
É uma das tendências da Igreja Católica. “Eu sou carismático deoniano, os franciscanos são carismáticos, os dominicanos são carismáticos”. São carismas que Deus dá numa determinada época e suscita homens como: Francisco, Clara, Domingos, Deon... No caso da minha congregação, tudo isso é carisma, aliás, quando achamos que estamos com a bola toda e somos toda a Igreja, nos enganamos feio. A Igreja não é toda de uma vertente carismática. A renovação no Brasil equivale de 8 a 10 milhões de católicos. Nós somos 130 milhões, a maioria não é da renovação, então, quando houver diálogos entre os carismáticos e nenhum achar que é mais que o outro, que é mais iluminado... Aí teremos uma Igreja boa. Quando vemos um que tem mais mídia ou poderoso, de repente acha que toda Igreja tem de ser como ele, acho que ele não ta entendendo o que é ser Igreja Católica. É de todos para todos e ele deve ver o valor dos outros. Esse aprendizado de humildade é que faz com que não viremos seita.
Como o senhor vê a realidade de que em pleno século XXI ainda tem pessoas que morrem de fome?
Não só morre de fome, mas nós criamos também uma sociedade excludente e o grupo do G8 e agora, do G20. São excludentes com a filosofia “Primeiro nós, depois os outros” e com a globalização, esquecemos o indivíduo fraco e o limitado, criamos um preço de remédio proibitivo, mercados proibitivos para pais e emergentes e países pobres. Também criamos uma sociedade de quem dá mais é quem pode mais e quem for mais esperto, por isso a Igreja não é contra o capitalismo, contra a competição, não é contra o socialismo nem contra a ditadura. A igreja é contra o capitalismo e a competição selvagem. Do meu ponto de vista a fome é produzida. O mundo tem comida que chega pra todo mundo, o problema do mundo não é o pobre e o empobrecimento, porque o dinheiro fica do lado dos ricos e sobram as migalhas para os pobres. Precisamos criar uma sociedade de partilha.
Qual sua opinião sobre a posição do bispo da Bahia Dom Flavio Capri sobre a transposição das águas do São Francisco?
Bom, ele sente as dores do nordeste, pois mora aqui e sabe do que está falando, ele é bispo. Eu prefiro não dar opinião nenhuma, respeito profundamente quem mora junto com o povo. Ele conhece as dores do povo, e se ele está correndo esse risco, sabe muito bem o que está fazendo. Eu admiro pessoas que põe o pescoço na guilhotina e tem coragem de lutar pelo que pensa.
O que mais lhe chamou a atenção sobre a vinda do Papa ao Brasil?
Acho que em cinco dias ele desfez os mitos criados contra ele em 22 anos. Ele é uma pessoa meiga, dedicada. O papa elogiou meu trabalho. Quando eu ia me ajoelhar, ele não deixou. Levantou-me, me deu um abraço e falou em italiano para mim que era lindo meu trabalho e que eu devia continuar. Ele é uma pessoa que se interessa por tudo e por todos, não se preocupa com números. Um bom exemplo disso foi a vista dele à fazenda Esperança, um lugar onde tem dois mil jovens, vítimas de drogas, mostrando que o papa não esta preocupado com números e sim, com qualidade.
Como o padre qualifica o mercado da fé?
Hoje quem tem acesso à mídia vai ter mais adeptos (que têm poucos), terá menos seguidor. Eu escolhi ter menos acesso. Ofereceram-me trabalho com grandes editoras, grandes gravadoras e eu disse não. E alguma me perguntou: “Mas padre, por que o senhor não quer trabalhar com a Sony?”. Eu não quero porque minha vocação não é número. Estou bem onde eu estou. Não estou preocupado em encher meu templo, estou preocupado em falar coisas para as pessoas pensarem. Minha vocação é fazer pensar e não encher sacolas e templos.
Como o senhor vê o jovem na Igreja?
Eu acho que houve uma melhoria da presença dos jovens na Igreja. Agora, precisamos trabalhar a qualidade porque muitos jovens que estão na Igreja continuam não abrindo livros e não lendo, e repetindo frases feitas e o que escutaram. Sou a favor de uma geração que lê, que estuda e que pensa que essa é a única maneira que pode modificar um país.
Os únicos que modificam o mundo são os pensadores, “pois quem não pensa dá o que pensa”.
Qual sua a avaliação do atual quadro político do Brasil?
O Brasil continua um grande adolescente que ainda não achou o seu caminho, e é um país onde o corporativismo massacra as instituições. No dia em que os juízes começarem a se purificar, os deputados começarem a se expurgar e o povo começar a expurgar o congresso votando direito, nós teremos um país melhor. Sou a favor da arma do voto. Mas como você vai usar a arma do voto se não lê? Quero um país que lê com mais livrarias e menos discotecas.
Como o senhor encara a violência no Brasil?
A pior violência é o abandono. Deixar alguém abandonado é a pior violência, então, começa com o embrião, com o feto, com o filho pequeno... Depois, as pessoas que abandonam a mulher, abandonam o marido, comete uma violência com os filhos etc. É difícil construir um lar. Muita gente não aquenta calúnias, mentiras, destruição sistemática do outro, ameaças...Isso tudo é violência, prelúdio da violência física. Com isso, as pessoas vão perdendo a capacidade de autodefesa, além disso, existe um marketing que glamouriza a violência criando assim, o espetáculo da violência. Então precisamos de um esforço, conjunto da mídia, das Igrejas, escolas e famílias para que as mensagens sejam de tolerância e de paz. E como se não bastasse toda essa violência, ainda tem religião que chama a outra de demônio, que o diabo está na outra e ainda, dizendo que eles são iluminados e que o diabo está na outra gerando todo um quadro de violência. Com a predominância do “eu”.
Fonte: Da redação
Imagens: SNN