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Cientistas: sexto sentido é o que nos mantém em pé
Se você quer conferir o trabalho de um dos heróis sensórios anônimos do corpo, tente o seguinte: posicione o indicador alguns centímetros diante do rosto e o mova para frente e para trás em ritmo de uma ou duas vezes por segundo. O que você? Um dedo fora de foco. Agora, mantenha o dedo parado e mova a cabeça para frente e para trás ao mesmo ritmo. Nesse caso, o foco não se perde. O dedo fica nítido mesmo que a cabeça seja movida vigorosamente.
E isso é uma vantagem. Caso o cérebro não fosse capaz de distinguir entre os movimentos do observador e daquilo que é observado, se a cada vez que a pessoa se virasse ou caminhasse pela sala o cenário saísse de foco, é provável que ela evitasse se mover, incerta diante de ameaças externas e sem a ajuda de uma bússola pessoal interna.
Uma parte essencial de nossa percepção de individualidade é o sistema vestibular, um conjunto duplo de pequenos órgãos sensores integrados aos ossos das têmporas, dos dois lados da cabeça, perto da cóclea, no ouvido interno. O sistema vestibular não é um sentido famoso e elitista como os famosos cinco - visão, audição, olfato, tato e paladar. É mais um sentidozinho comum, humilde, trabalhando de forma anônima e muitas vezes incompreendida. Até mesmo seu nome é fruto de um engano, porque os primeiros anatomistas consideram que ele apenas servisse como vestíbulo, ou entrada, para o ouvido interno.
A despeito de sua reputação humilde, o sistema vestibular recentemente conquistou fãs entre os neurocientistas, que admiram sua sofisticação e sensibilidade, bem como a maneira pela qual eles nos diz onde estamos e o que estamos fazendo, e seus sensatos conselhos sobre evitarmos as vergonhas sofridas quando tentamos andar de patins.
Eles elogiam a precisão de suas partes, a maneira pela qual o sistema vestibular descobriu as leis da mecânica newtoniana 400 milhões de anos antes de Newton e o uso que faz desses princípios para equipar nossa cabeça com pequenos giroscópios e aceleradores lineares orgânicos.
Como prova do prestígio ascendente do sistema vestibular, a primeira edição de Sensation and Perception, um conhecido manual universitário, em 2005 mal o mencionava, mas na versão revisada que sai este mês há um capítulo inteiro sobre o assunto no final do livro. "Não quero parecer ingrato", disse Daniel Merfeld, professor associado da Escola de Medicina de Harvard e especialista no sistema vestibular, responsável pelo capítulo. 'Portanto, estou grato por ele ter sido incluído agora".
Os médicos também estão aprendendo a identificar melhor os sintomas associados a um sistema vestibular disfuncional, e a distinguir entre diversos distúrbios diferentes que no passado eram todos classificados sob a rubrica Doença de Meniere. Um desses problemas é o Mal de Débarquement, que faz com que pessoas que tenham passado algum tempo a bordo de um navio, avião ou outro veículo em movimento ainda sintam esse movimento bem depois do desembarque.
A síndrome se tornou mais conhecida dada a popularidade dos cruzeiros marítimos, e embora a maioria dos episódios sejam curtos, há casos que duram meses ou anos, e vêm acompanhados pelo que os pacientes descrevem como "nevoeiro mental", uma sensação de retardamento de aprendizado tão debilitante que pode pôr fim a carreiras, relacionamentos e vidas.
O Dr. Yoon-Hee Cha, neurologista da Universidade da Califórnia em Los Angeles, diz que a doença continua misteriosa e difícil de tratar, "mas quero enfatizar que é mesmo uma doença e que os médicos não deveriam desconsiderar o que seus pacientes dizem sobre ela".
O sistema vestibular é antigo e está presente em todos os vertebrados, mas não é primitivo, e pode ter ganho importância maior entre nós do que para nossos ancestrais marinhos. Sua missão é calcular a posição da cabeça - e muitos planos estratégicos e sabedoria derivam disso. O bipedalismo de que tanto nos orgulhamos, por exemplo.
Quando nos levantamos e posicionamos tornozelos, coxas, torso e cabeça em configuração vertical estável, diz Merfeld, estamos inconscientemente equilibrando seis pêndulos - um feito que equivaleria a equilibrar seis lápis na palma da mão ao mesmo tempo.
O comando do bipedalismo cabe ao sistema vestibular, que avalia a posição da cabeça com relação ao solo e sinaliza ao cérebro que ajuste os demais pivôs. Se o sistema for prejudicado por, digamos, excesso de álcool, o sujeito começa a cambalear.
O sexto sentido serve de conduto entre sistemas sensórios. Ao acenar com a cabeça ou movê-la inconscientemente ao longo do dia, o sistema vestibular ordena que globos oculares compensem esse movimento e diz ao cérebro que não há causa de preocupação - é só a cabeça sendo antipática sempre: melhor interpretar os sinais visuais como se ela estivesse imóvel.
O aparelho vestibular é pequeno, transparente e pode ser difícil de localizar. "É basicamente uma cavidade no crânio, cheia de fluido e revestida de membranas", diz Merfeld. "Quase como se fosse a ausência de algo e não uma presença".
Mas o arranjo das membranas e fluidos é altamente estruturado, formando cinco órgãos sensórios distintos em cada cavidade do tamanho de uma ervilha. Três deles detectam motivos diagonais da cabeça, ao medir a discrepância entre os ângulos das membranas, afixadas aos ossos, e o fluido flutuante.
Os outros dois utilizam pequenas pedras de carbonato de cálcio que sobem e descem como falsos flocos de neve em um globo de vidro e assim detectam o efeito da gravidade e do movimento linear da cabeça - aquele que fazemos ao caminhar ou subir escadas, por exemplo.
Todas as cinco sentinelas transmitem as constatações que fazem ao cérebro da mesma forma, dobrando projeções semelhantes a bigodes de gatos em células de cabelo próximas, que traduzem os sinais mecânicos em impulsos elétricos que os neurônios podem decifrar.
Talvez seja hora de dar uma folguinha ao sistema vestibular. Por que não uma cerveja?
Fonte: Snn por Agencia Brasil
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