
A primeira impressão foi de espanto, pelo grande espaço onde a festa foi montada. Pensava eu que seria uma ‘arraialzinho’ com barraquinhas de comidas e bebidas, mas era um mundo a céu aberto, onde milhares de pessoas dançavam, comiam, namoravam e se divertiam pra valer. A decepção veio logo em seguida: a poeira levantada pelo ‘arrasta-pé’ da multidão me sufocou. Comecei a passar mal e tive que sair às pressas do ambiente para evitar uma crise profunda de alergia.
Como a festa continuava e meus amigos não desanimavam por nada, fiquei indo e voltando para dentro e para fora do parque, até alta madrugada. Quando a festança chegou ao fim, fomos todos para o final de linha do bairro Mussurunga 1 esperar o pernoitão, ônibus que roda a cidade inteira, da meia noite às cinco da manhã. Cochilávamos todos sentados no meio-fio, com medo de ser assaltados e com medo de perder o próximo ônibus. Não sei o que nos amedrontava mais. Finalmente, todos embarcaram e eu dei adeus àquele espaço para sempre. Quer dizer, quase.
Digo quase pois, em 2010, passados mais de dezessete anos, retornei ao parque, para assistir a um mega show. No final de
Ingressos comprados pela internet, recebi o par de entradas no conforto do meu lar. Deus me livre de enfrentar a selvageria dos fãs invadindo um grande shopping da cidade para chegar na frente e garantir a compra dos primeiros lugares.
Meses de ansiedade, medo de que Beyoncè cancelasse ou adiasse a vinda. Finalmente o grande dia: 10 de fevereiro de 2010, quarta-feira, dia de aula na minha faculdade, onde frequento o curso de jornalismo. Eu teria que faltar à aula, por uma boa causa. E faltei. Beyoncè e Ivette mereciam. Elas não poderiam fazer o show sem minha presença na plateia (risos).
Eu moro a cerca de
A maravilhosa Ivette Sangalo, sangue quente, "arretada", verdadeira, uma anfitriã completa. No horário previsto entrou no palco, saudou o público e brindou a todos com músicas atuais e antigas, fazendo uma retrospectiva para homenagear os 60 anos do trio-elétrico (leia-se Armadinho, Dodô e Osmar – o verdadeiro "trio", nome que batizou, depois, o caminhão onde os artistas se apresentam): Rebolation, Dancing Days, "Preta, fala pra mim…", sons de charanga de escola, "Oh, Maluquete, diga de quem você é tiete… eu sou, show tiete do Chiclete…", "Chupa toda" e outros embalos, além de "Dalila… vai, buscar Dalilaaaaaa…" fizeram a plateia enlouquecer.
Ivette brinca com seus fãs, diz que tem uma marca de "PEREBA" na perna, joga água mineral para o povo, reclama dos ventiladores do palco, toca atabaque, dança lambada, põe Xuxa para falar ao microfone e a saúda com o "Ilariêeee", brinca com a declaração de Léo, do Parangolé, que disse estar "ficando" com Perla, quando flagrado num beijo escandaloso com a cantora… Ivette diz no show "se aquilo é ‘ficar’, eu não sei o que é sexo…". Em seguida, a cantora cantou o novo sucesso "Vou te comer", ilustrada com imagens do Lobo Mau e da Capeuzinho Vermelho em desenho no telão ao fundo do palco… A plateia delirou, literalmente…
Antes de abandonar o palco e não voltar mais, dando lugar à "Perla brasileira" ou "Prima de Dalila" (Alcunhas de Beyoncè, segundo Sangalo), Ivette agradeceu ao público e disse que o sucesso de mais de quinze anos se deve à sua personalidade forte e ao apoio de baianos e brasileiros. Ela disse, ainda, que cada fã deve se sentir um pouco a Ivette, que não é uma personagem e sim uma pessoa real, que é a mesma em casa, no trio ou no palco. "Eu não conseguiria sustentar um "papel de teatro" durante tanto tempo. Sou muito verdadeira". Em seguida, brincando, mais uma vez, disse que Beyoncè gostou tanto de Salvador que iria comprar uma casinha no subúrbio de Periperi para morar.
Na vez da Diva americana se apresentar, só mesmo para quem assistiu para poder dizer o que sentiu… Eu fiquei extasiado, gritava feito louco, pulava como um descontrolado e vibrava a cada acorde, a cada grito estridente da estrela. Filmei quase todo o espetáculo e tirei centenas de fotos. As oito pilhas sobressalentes não foram suficientes para aguentar até o final do show…
Quando acabou, fiquei anestesiado e triste. Quando verei novamente uma apresentação tão linda?
O terror começou na saída: os portões ainda estavam com os "currais" que obrigavam a multidão a se comprimir e se espremer para passar por entre grades… O chão de terra levantava uma poeira que sucofava e me fez lembrar da sensação horrível que tive na primeira visita à estrebaria e à pocilga que é o Parque de Exposições de Salvador. Ali é um espaço apropriado para expor gado, cavalo, cabra e avestruz e não um local próprio para shows nacionais, muito menos para shows do quilate do de Beyoncè.
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