

Na região metropolitana de Campina Grande, no ano passado, a cidade de Fagundes mostrou-nos um pássaro exótico, diferente dos vistos no Nordeste. A ave parece imponente, com seu ar soberano. Primeiro pelo tamanho, segundo pela beleza de pose, a mirar o céu. E foi devido a essa pose que o pássaro ganhou o nome de "Pai da Lua". Lá em Fagundes, ele é super bem protegido pelo ambientalista Aramy Fablício, que escreveu essa história de amor e dedicação em troca de nada material, apenas para salvar a fauna.
Enquanto os moradores de centros urbanos, pequenos ou grandes, disputavam roupa ou brinquedo melhor, Aramy aprendia com a avó que o canto do Urutau não era horripilante como parecia. Devido aos gritos fortíssimos, monossilábicos (groaa), repetidos de 10 e 20 segundos, o então menino curioso em descobrir mais sobre essa ave que alimenta-se de besouros e morcegos. O que ele conseguiu com essa investida ecológica?
Nasci, cresci e ainda moro
Eu lembro que estava indo tirar umas fotos de dois filhotes de urubus quando vi aquele ovinho no topo de um galho seco com a criatura dando complemento ao galho. Fiquei bobo! Mas o ninho tava próximo de uma área que tinha muitos sagüis. Era uma área de dormida. Eles formam grupos que variam até doze por bando. Sabia que eles iam comer aquele ovinho, pois são onívoros (que se alimentam tanto de tecidos animais quanto vegetais, como o lobo guará). Quando os sagüis acordam estão com uma fome voraz. Se alimentam de frutas e, também, de ovos de aves, filhotes de aves e insetos como gafanhotos. Fiquei lá e dormi em cima de um lajedo, porque estava num período de seca. O perigo deles atacar a ave e comer o ovinho era bem maior. Quando amanheceu o dia, afugentei todos e eles foram pro topo da serra. Fui em casa, peguei minha barraquinha de campo e acampei. Não para estudar a ave, mas para os sagüins e outros predadores não comerem aquela pérola frágil. À tardinha, eles voltavam para dormir, mas voltavam com a barriga cheia e não incomodavam. Foram-se passando os dias e comecei a pensar: "esta ave vai nascer quando? E depois de nascida, vai voar com quanto tempo?" Percebi que tinha entrado em uma guerra grande e não podia voltar mais atrás. Passei fome, frio, pois a barraca com o tempo ficou ressecada. Com a chegada do inverno, mal dormia com frio, as chuvas, cada vez mais, eram intensas. Mas sabia que era uma missão. Por ficar muito tempo sem contato com pessoas, comecei a ficar com medo de caçadores ou pessoas que poderiam querer as aves para empalhar e vender para colecionador. Excêntricos, que pagariam uma fortuna por aquelas criaturas exóticas e pré-históricas.
Um colega de jornal escrito publicou uma matéria depois que enviei uma foto. Daí então o telefone tocava o tempo todo e eu não podia mais discriminar nenhum jornal, pois já tinha matéria
Fiquei 71 dias morando na floresta. E mais um dia e uma noite para ver se eu via a criaturinha. Total: 72 dias. De manhãzinha, desarmei a barraca, mas muito orgulhoso porque fiz minha parte. Ajudei aquelas raras criaturas. Um dia desses estava anoitecendo e o filhote estava na beira da floresta, no topo de uma estaca. Fui pertinho e tirei umas fotos. Conheci logo a criatura, levando em conta que eles (mãe e filho), cada um, tinha umas pintinhas diferentes na plumagem, como umas digitais. E a plumagem dele (o filhote) ainda estava um pouco clara, mas já dava para se camuflar. O único erro dele, por ser jovem, foi, antes de anoitecer, estar quase fora da floresta. Mas o legal é que a floresta é muito grande e não tem casas por perto. E ela é muito esquisita, ninguém anda nela, já que faz parte de uma área de preservação do projeto Biqueira Velha, que é uma plaquinha confeccionada com zinco, reaproveitada das biqueiras ou calhas velhas de aparar água para cisternas. Nelas, eu escrevo a frase: PROIBIDO CAÇAR E CAPTURAR ANIMAIS. Essas plaquinhas, eu faço doações para os grandes ou pequenos proprietários de terras. Devido às propriedades de Fagundes e cidades vizinhas terem estas plaquinhas em frente a quase todas elas, não importa se tem um ou mil equitares, em toda propriedade que tem plaquinha na frente, se torna uma grande área sem ninguém caçar nem capturar animais. O projeto Natureza Livre, eu falo que é filho do projeto Biqueira Velha, que demarca uma área de soltura e preservação ambiental. Quanto às aves, toda noite de lua cheia, vou pra floresta escutar os gritos dos Pais da Lua. Nesta noite de lua cheia, os gritos foram um show, já que não chamo aquilo de canto.
Estas fotos são raras. É a continuação da história! Todos perguntam pela ave, o tempo todo. Muitos nem entendem que eu tava ali protegendo. Outros pensam que eu tenho ave. Outros perguntam se eu vejo as aves. Já veio até turista apaixonado por esta ave! Ele queria ver, mas expliquei pra ele que a probabilidade era zero. Mesmo assim, ele quis vir apenas para sentir a atmosfera onde estas aves moram, mas, lógico que cheguei apenas perto e expliquei pra ele e ele entendeu e respeitou, ficou satisfeito. Isto (as fotos) foi uma espécie de um obrigado que ele (o pássaro) pediu a mim este ano. E para mim foi uma prova de missão cumprida. A cara dele (a ave) ainda é de adolescente, com aspecto de bobinho ainda. Mesmo com o tamanho e a plumagem quase da mesma cor dos adultos...
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