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Mas Não é, Com Certeza, o Meu País

 “Um país que engoliu a compostura

Atendendo a políticos sutis

Que dividem o Brasil em mil brasis

Pra melhor assaltar de ponta a ponta

Pode ser o país do faz-de-conta

Mas, não é com certeza o meu país”. (Zé Ramalho)

 

-  Zé Ramalho 

Zé Ramalho nascido a 3 de outubro de 1949 é filho da professora Estelita Torres Ramalho e do seresteiro Antônio de Pádua Pordeus Ramalho. Órfão de pai aos dois anos de idade foi criado pelo avô, homenageado, mais tarde, na canção “Avôhai”. Depois de passar a maior parte da infância em Campina Grande, PB, mudou-se com a família para João Pessoa, onde iniciou sua vida artística participando de algumas apresentações de “Jovem Guarda”. Desde então foi ocupando, paulatinamente, graças à genialidade de suas composições, um lugar de destaque na música popular brasileira.  Dotado de uma voz possante, tonitruante e um espírito crítico invulgar, Zé Ramalho envolve aqueles que assistem suas apresentações, sob seu mágico manto de imagens e sons insólitos. 

-  O Meu País - Zé Ramalho

      Composição: Livardo Alves - Orlando Tejo - Gilvan Chaves (http://www.youtube.com/watch?v=23njG4p7i7E) 

Tô vendo tudo, tô vendo tudo

Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

 

Um país que crianças elimina

Que não ouve o clamor dos esquecidos

Onde nunca os humildes são ouvidos

E uma elite sem deus é quem domina

Que permite um estupro em cada esquina

E a certeza da dúvida infeliz

Onde quem tem razão baixa a cerviz

E massacram - se o negro e a mulher

Pode ser o país de quem quiser

Mas não é, com certeza, o meu país

 

Um país onde as leis são descartáveis

Por ausência de códigos corretos

Com quarenta milhões de analfabetos

E maior multidão de miseráveis

Um país onde os homens confiáveis

Não têm voz, não têm vez, nem diretriz

Mas corruptos têm voz e vez e bis

E o respaldo de estímulo incomum

Pode ser o país de qualquer um

Mas não é com certeza o meu país

 

Um país que perdeu a identidade

Sepultou o idioma português

Aprendeu a falar pornofonês

Aderindo à global vulgaridade

Um país que não tem capacidade

De saber o que pensa e o que diz

Que não pode esconder a cicatriz

De um povo de bem que vive mal

Pode ser o país do carnaval

Mas não é com certeza o meu país

 

Um país que seus índios discrimina

E as ciências e as artes não respeita

Um país que ainda morre de maleita

Por atraso geral da medicina

Um país onde escola não ensina

E hospital não dispõe de raio-x

Onde a gente dos morros é feliz

Se tem água de chuva e luz do sol

Pode ser o país do futebol

Mas não é com certeza o meu país

 

Tô vendo tudo, tô vendo tudo

Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

 

Um país que é doente e não se cura

Quer ficar sempre no terceiro mundo

Que do poço fatal chegou ao fundo

Sem saber emergir da noite escura

Um país que engoliu a compostura

Atendendo a políticos sutis

Que dividem o Brasil em mil brasis

Pra melhor assaltar de ponta a ponta

Pode ser o país do faz-de-conta

Mas não é com certeza o meu país

 

Tô vendo tudo, tô vendo tudo

Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

 



Fonte: Hiram Reis e Silva

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